O jornalismo e a democracia em Moçambique: A cobertura dos casos de corrupção nos jornais Domingo e Savana

Tesis doctoral

Resumen

Esta tese discute sobre o sentido que se atribui ao papel dos media, em Moçambique, no contexto da democracia multipartidária caracterizada por um partido dominante, a Frelimo. O argumento central que se traça é de que as características de uma democracia de partido dominante fazem com que o sistema dos media seja caracterizado pela existência de meios que permanecem sob seu controlo, muitos dos quais criados no contexto monopartidário (1977 - 1990), funcionando como espaço de protecção dos seus interesses; por outro lado, a existência de meios que se servem do espaço democrático, que se estabelece desde a constituição de 1990/1992, como oportunidades para a oferta de conteúdos diferenciados dos media sob controlo do partido dominante, orienta-se à crítica da sua governação. A pesquisa realizada é baseada na análise do agendamento dos casos de corrupção nos jornais Domingo e Savana, entre 2008 a 2015. Embora a corrupção seja objecto de cobertura do jornal Domingo, as relações entre as estruturas de liderança editorial com as altas figuras do partido no poder, a dependência pelas fontes de informação oficial e os enquadramentos temáticos e uma cobertura orientada para casos de pequena corrupção, reduzem os espaços de exposição negativa dos actores envolvidos. Esta abordagem do jornal Domingo restringe a concepção de um jornalismo de contra poder, sobretudo por orientar a sua abordagem para uma perspectiva mais informativa sobre os eventos e acções das instituições que lidam com a corrupção. Por seu turno, o jornal Savana, orientado por uma visão do jornalismo crítico, a cobertura da corrupção torna-se um valor relevante que define a sua acção na perspectiva de contra poder que, além da dependência pelas fontes oficiais, abre espaço para a inclusão de outros actores que expõem a corrupção como a face negativa da governação em Moçambique. Os níveis de agendamento e os enquadramentos oferecidos em cada jornal sobre a corrupção fazem concluir que existe uma orientação, no jornal Domingo, de interpretação da responsabilidade social fundada num papel informativo e de dissimulação da corrupção, quando ligada aos actores do partido Frelimo, o que se explica e define-se pela sua maior proximidade e controlo. Por seu turno, o jornal Savana, que revela uma abordagem que fundamenta um papel mais crítico e de contra poder na reportagem sobre a governação, mostra uma certa autonomia da sua agenda sobre a corrupção. As conclusões realçam o facto de haver ainda limitações na cobertura sobre a corrupção geradas pelo próprio contexto político, caracterizado pelos elevados níveis de secretismo e baixa cultura de transparência, barrando o acesso à informação sobre a corrupção acessível aos media; para além da forte influência e dependência dos jornais nas fontes oficias, assim como a existência de recursos limitados para a prática de um jornalismo investigativo que possa impulsionar uma maior exposição dos casos de corrupção.
Fecha de lectura8 sept 2017
Idioma originalPortugués
Institución de lectura
  • Universitat Autònoma de Barcelona (UAB)
SupervisorM. Dolores Montero Sánchez (Director/a)

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